Monday, January 02, 2012

Nada a invejar



As imagens de histeria coletiva registradas na Coreia da Norte após o ditador de lá bater as botas me lembraram um dos melhores livros que li em 2011, o "Nothing to envy, ordinary lives in North Korea", da Barbara Demick. Quando em 1994 morreu o Kim Il-sung, o Grande Marechal, pai do atual defunto, a histeria também foi generalizada. Quem não conseguia chorar se virava como podia, não importava a idade. Uma professora ficou preocupada com os berros de uma aluna, achou que ela estava prestes a enfartar. A bichinha uivava mais alto que seus coleguinhas, cuspia nas mãos e passava no rosto. Por que isso?, perguntou a professora. Minha mãe me disse que se não chorar eu sou uma pessoa ruim, a garota explicou.

Em todo o país, havia então 34 mil estátuas do Kim Il-sung. A população começou a ir prestar suas homenagens diante das estátuas. Só uma cidade tinha 25 delas, mas isso era pouco diante de tanta gente enlutada. E o que parecia ter começado de forma espontânea logo se tornou um campeonato pra ver quem chorava mais alto e mostrava de forma mais desesperada a sua dor. Tudo devidamente acompanhado pela TV estatal. Pelas ruas, era grande o empurra-empurra. As pessoas desmaiavam, rasgavam as roupas, socavam o ar, batiam suas cabeças nas árvores. A TV mostrava horas e horas dessas cenas, além de marinheiros batendo suas cabeças nos mastros dos barcos e pilotos chorando a catadupas em seus cockpits. Não se podia usar chapéu, maquiagem, nem beber, dançar ou ouvir música. O gigantesco sistema de vigilância do cidadão comum se encarregava de vigiar quantas vezes as pessoas iam até a estátua do grande líder, como agiam e até suas expressões faciais.

O culto à figura do Grande Líder, do Pai, começa cedo e inclui, em cada grande escola do ciclo elementar, uma sala dedicada especialmente ao estudo da vida da criatura. É uma sala mais bem aquecida que as outras da escola e deve estar sempre imaculada. Para isso, há fiscalizações frequentes feitas por agentes do Partido dos Trabalhadores. Para entrar nesse santuário, as crianças tiram os sapatos. Depois, devem guardar absoluto silêncio e se curvar três vezes, dizendo "Obrigado, Pai".

Como todas as "boas" ditaduras do gênero, a da Coreia do Norte também impôs uma grande fome ao seu povo, ao entrar na aventura nuclear e a despeito de toda a ajuda humanitária do Ocidente. A estimativa é de que de 600 mil a dois milhões de pessoas tenham morrido por causa da fome, ou até 10% da população. Embora em números absolutos não tenha chegado perto da grande fome na China, que, entre 1958 e 1962, matou 30 milhões de pessoas, também houve relatos de canibalismo e outras cenas medonhas. Muitos dos víveres entregues como ajuda humanitária iam parar no mercado negro, ainda com as embalagens de procedência. O governo aceitava a ajuda, mas restringia a atuação de representantes de agências humanitárias, ou seja, repelia qualquer tipo de fiscalização. Um estudo de 2003 de organismos da ONU concluiu que 42% das crianças norte-coroeanas ficaram permanentemente afetadas pela fome, com sinais como cabeça grande e pernas mal desenvolvidas. A falta de comida produziu uma geração de órfãos.

As monstruosidades não param por aí: pra aspirar a ter algum tipo de ascensão, os norte-coreanos devem entrar no Partido dos Trabalhadores. Mas isso não é tarefa simples, porque o indigitado Kim Il-sung, combinando confucionismo com stalisnimo, criou uma espécie de sistema de castas, que pôs a ele e à sua família no alto da pirâmide social. Dali pra baixo são 51 categorias, agrupadas em três grandes classes, entre elas a que fica lá embaixo, a classe hostil, que inclui os execrados de sempre, como as putas, além dos politicamente suspeitos, os de "sangue impuro". E quem são esses? Descedentes de antigos fazendeiros, de japoneses, de gente que frequentava a igreja, que tinha parentes na China etc. Tudo gente que recebia uma dose de vigilância extra devido a esse histórico.

Um dos personagens de "sangue impuro" retratados no livro, uma médica, após anos de trabalho pesado e privações, decide fugir depois de descobrir que vinha sendo mantida sob vigilância especial e concluir que jamais conseguiria entrar pro partido. Ela foge pra China, cruzando um rio semicongelado. Morrendo de frio, começa a procurar abrigo e consegue entrar numa casa cujo portão estava aberto. No chão, vê uma tigela de arroz com pedaços de carne. Até então, ela ainda tinha esperança de que a Coreia do Norte fosse o melhor país do mundo, como dizia a propaganda, ou que pelo menos a China fosse tão pobre como a Coreia do Norte. Mas logo a realidade se impôs: na China, até os cachorros comiam melhor do que um médico na Coreia do Norte. E ela mesma já nem sem lembrava mais de quando vira pela última vez uma tigela de arroz branco puro.

Para os norte-coreanos, chegar à China era como chegar ao paraíso: as pessoas comiam arroz todo dia, tinham acesso a bens como liquidificador e geladeira. Agentes norte-coreanos se infiltravam na população de cidades chinesas na fronteira para capturar fugitivos. Numa só operação, por exemplo, chegaram a prender oito mil norte-coreanas. Mas se os fugitivos passassem um bom tempo na China, já não era tão fácil detectá-los, pelo menos apenas pela checagem visual, pois eles engordavam e passavam a usar as roupas chinesas. Assim como há os coyotes mexicanos, também na Coreia do Norte surgiu um mercado pros contrabandistas de seres humanos.

Uma foto de satélite é um impressionante retrato de um país onde falta tudo, onde vendedores de DVDs piratas e ladrões de fios de cobre são executados como traidores. A imagem mostra as duas Coreias à noite: a do Sul tem vários pontos iluminados; a do Norte está mergulhada na escuridão, com apenas um ponto iluminado, a capital do país.

"Nada a invejar", o título do livro - que possivelmente jamais será publicado no Brasil -, remete a uma canção ensinada às crianças na escola: "Nosso Pai, nós não temos nada a invejar no mundo/ Nossa casa está protegida pelo Partido dos Trabalhadores/ Nós somos todos irmãos e irmãs/ Mesmo se um mar de fogo vier para cima de nós, doces crianças, não tenham medo/ Nosso Pai está aqui/ Nós não temos nada a invejar neste mundo".


PS: Tô errado. Como informa Raquel Cozer no seu blog (abibliotecaderaquel.folha.blog.uol.com.br) e em reportagem na "Folha de S.Paulo", está programada pra sair em 2013 uma edição de "Nothing to envy" pela Companhia das Letras.

3 Comments:

At 12:54 PM, Blogger Clara Lopez said...

Caracas, osvjor, esse post é muuito bom, porque ao longo dos dias em que o último ditador fiquei pensando muito como é que se consegue manter um país inteiro à margem da informação e de tudo nesses tempos de internet. É muito impressionante seu relato, baseado no relato da autora, e me pergunto como é que ela conseguiu essas informações, ela morou lá? Como saiu, como pesquisou isso tudo?

Eu sempre tive medo da coreia do norte, aquele símio travestido de ditador, com uma bomba atômica à mão, era e é muito aterrorizante, e não há muito que possamos fazer com a china como cão de guarda do país. Enfim, um povo inteiro subjugado numa escravidão sem fim e nós do ocidente olhando impávidos. Nunca poderemos alegar inocência face a esse crime. E a américa de norte, que adora invadir territórios e fincar a bandeira da "salvação da humanidade" em terras alheias, também não se mexe.

Enfim, ótimo post, ótimo livro (e por que não sairia aqui, vc acha que há censura a esse tipo de livro? eu acho que não), e welcome back!! :)
clara

 
At 12:55 PM, Blogger Clara Lopez said...

'o último ditador foi velado'

 
At 5:43 PM, Blogger osvjor said...

Oi, Clara, não lembro direito, não tô com o livro aqui comigo, mas não acho que ela tenha vivido lá, porque o país é totalmente fechado. Ela deve ter levantado as histórias a partir de depoimentos de gente que conseguiu fugir pra Coreia do Sul e a partir de informações de ONGs de direitos humanos, organismos da ONU etc. Duas coisas que mais me chamaram a atenção foram o fato de a China ser pros norte-coreanos um porto de salvação e o fato da gente mesmo achar que, bom, comparando com a Coréia do Norte, a China é desenvolvida pra caramba, embora as monstruosidades ocorridas na Coréia do Norte façam parte da história da China também e muitas ainda aconteçam. Sobre a possibilidade do livro ser publicado aqui, o que eu pensei é que não é mais uma obra mostrando como o Che Guevara era um grande humanista, nem como os EUA são malvados ou Israel é uma nação imperialista, então as chances não são grande coisa... Quando ganhar na Mega-Sena vou abrir uma editora só pra publicar (não vender, porque não vai vender) livros do Robert Conquest ("Harvest of sorrow", "The great terror"), do Stephen Koch ("Double lives") e outros que agora não lembro mais... ah também vou publicar traduções que ninguém vai ler de biografias de grandes músicos, como Miles Davis, John Coltrane, Lee Morgan, Clifford Brown etc. Mas acho que não vai dar tempo...

 

Post a Comment

<< Home