Monday, January 02, 2012

Em resumo


Um dos clichês usados por quem escreve é não dizer logo o objetivo do texto. Em vez de escrever de cara "hoje descobri que sou filho adotivo", o sujeito vai embromando, embromando, e só no fim faz a grande revelação, de preferência numa cena em que o pai, moribundo, confessa o terrível segredo.

Isso não quer dizer que um texto NÃO precise ter clímax. Sou a favor do clímax. Mas são coisas diferentes.

Isso também não quer dizer que um texto PRECISE ter clímax. Há textos que se sustentam só no clima, sem o "x". Posso estar completamente enganado, mas, puxando pela minha mente cansada, um cara que me parece o rei do clima é o Henry James, um americano que eu sempre achei que fosse inglês e depois descobri que era americano, mas se naturalizou inglês.

Quer dizer, às vezes o importante está no meio. Mas fazer isso me parece ainda mais difícil. Estou citando tudo de memória, mas acho que o "Relógio do hospital", conto do Graciliano Ramos, também entraria nessa categoria. O texto fala do quê? Dum paciente convalescendo num leito de hospital, com o tempo se arrastando, marcado pelas batidas do relógio da enfermaria, custosas como "mijadinhas blenorrágicas" (viajei, mas essa expressão é do Graciliano, sim, só que de outro texto).

A explicação deve estar na arte do negócio. Não sou eu que vou saber explicar, quem quiser pode, por exemplo, recorrer a "O que é arte?", do Tolstói, que, confesso, achei meio palavroso. Talvez seja mais fácil perceber quando a arte está em falta. Outro dia levei um susto porque um fulano de tal se apresentou como escritor. A explicação era a seguinte: ele era escritor porque... escrevia. Até publicou livro! Fulano de tal escreve bem, mas falta alguma coisa. Não é a relevância do tema, a exposição precisa das idéias, a correção da língua... Tudo isso está lá. Mas falta aquele negócio que faz dum texto algo mais que um texto. Acho que falta arte.

Um negócio que eu não gosto muito é de invenção. Tenho implicância. O recado que me parece dar é o seguinte: a mensagem que eu preciso passar é tão original que o idioma estabelecido não tem capacidade de expressá-la adequadamente. Tá bom. Depois, não vejo por que complicar se se pode simplificar. Mas já achei sensacionais livros que, se não me engano, têm lá a sua dose de invenção, como "Desabrigo", do Antonio Fraga.

Resumindo: se você não sabe como terminar um texto, uma opção é começar uma frase com "resumindo" e escrever qualquer coisa.

4 Comments:

At 1:08 PM, Blogger Murilunk said...

Lembrei-me de um conto da autoria de Rubem Fonseca, intitulado "Labaredas das trevas", em que o seu protagonista e narrador não se conforma por não ser bem aceito pela crítica literária. Um desses críticos fictícios diz que ele "deveria deixar coisas por dizer". E isso é literatura. As tragédias gregas e romances policiais são gêneros consagrados pois o clímax de seus textos são representados pelo suspense.

Gostei muito de seus textos. Como graduando em Letras, achei-os um bom exercício de reflexão. Se puder, dê uma passada pelo meu blog.

Abraço.

 
At 4:34 AM, Blogger osvjor said...

boa, Murilunk.
abs

 
At 11:35 AM, Blogger Clara Lopez said...

Oi, osvjor, eu já fui, já voltei, já dei um tempo, já desdei, e vc quietinho, só não resisto à pergunta: vc já viu A música de Tom Jobim? Porque pensei em como vc talvez gostasse muito desse filme, parece com você, por causa da ótima música, claro ::)
abraço,
clara

 
At 4:52 PM, Blogger Clara Lopez said...

Oh, sumiço, isso é que dá jogar tênis...:)
abr

 

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