Nada após um dia comer o outro
Thursday, November 26, 2009
Monday, November 23, 2009
O amor não tem fronteiras ou ó, só, por que a gente não deve trabalhar de graça

O telefone tocou e minha mulher atendeu. Do outro lado, B. conta que conheceu um americano numa boate, passaram momentos muito especiais juntos, o cidadão voltou pros EUA e eles agora estavam mantendo contato por e-mail. Problema: B. não entende inglês e precisa de alguém pra traduzir. Aí diz que vai repassar os e-mails pra minha mulher, pra ela fazer a ponte da paixão entre os pombinhos.
- Não, não. Faz o seguinte: manda pro meu marido que ele entende mais dessas coisas de tecnologia. Anota aí o e-mail dele.
Eu ouvi aquilo e abri os braços como quem diz: comé que é? Ela fez outro gesto como quem diz, deixa pra lá, ele não vai mandar nada.
No dia seguinte, recebo no e-mail do trabalho: "Caro osvjor, aqui está o e-mail de M. Muito obrigado por traduzir e desculpe o incômodo, tá? Serei eternamente grato".
B. e M. tinham se conhecido numa boate gay. Minha mulher conhecia M., mas com seu jeito expansivo logo estava amiga de B., que ligou várias vezes aqui pra casa pra pedir conselhos amorosos. M. era um homem maduro, B., um garoto ainda, meio perdido na vida.
Abro o e-mail e começo a traduzir. Diz M.: "Sinto sua falta. Foram momentos muito agradáveis a seu lado". Encerro o trabalho e envio pra B.
No dia seguinte, outra mensagem de B., dessa vez menos cerimoniosa: "Oi, olha outro email aí. Valeu, heim". Diz M.: "Se você vier mesmo pra Nova York, eu vou cuidar bem de você. Beijos, te amo". Traduzi e enviei pra B. As mensagens dele pra M., outra pessoa traduzia, segundo ele contou à minha mulher.
E assim se iniciou esse romance epístolo-cibernético. Não era nada demais, o conteúdo das mensagens na maioria das vezes era bem brega, bobo, como costumam ser as conversas dos apaixonados. Mas eu me sentia desconfortável. Não pela veadagem, mas: 1) achava que aquilo era um pouco de abuso com a minha pessoa; e 2) eu estava invadindo a intimidade do americano, que não sabia que alguém lia os e-mails dele.
Mas como? Se B. não falava inglês, então como M. achava que ele estava se virando aqui com os e-mails? Como eles se comunicavam antes? Não vale dizer que era pela linguagem universal do amor...
Com o tempo, B. foi ficando mais folgado. Passou a simplesmente reenviar os e-mails de M., sem qualquer mensagem pra mim, colocando apenas no subject: "Pra traduzir". M. foi ficando mais saudoso: "Muitas vezes, à noite, abraço meu travesseiro e me masturbo pensando em você".
Isso não tá certo, voltei a reclamar, esse foi o último. Quando B. ligou, dizendo que estava apaixonado por M., mas que agora também estava em dúvida entre um português e um italiano que conhecera recentemente, minha mulher comunicou minha decisão. O romance murchou. Mas o garoto ficou bem.
Sunday, November 22, 2009
Cadê o joelho que tava aqui?
Um dia acordei e o dedão do pé estava doendo. Eu estava pra viajar, mas à medida que o tempo passava o negócio piorava. Logo o dedão estava parecendo uma beterraba de tão inchado. Logo o meu pé inteiro era uma beterraba gigante. Cancelei a viagem. Eu tive que ir aos Correios pegar um treco, uma caminhada de uns meros seis quarteirões, e aquilo foi uma tortura, porque eu não conseguia mais usar a perna, estava aleijado. Pensei egoistamente que feliz era quem tinha muleta. Nos Correios, vi uma cega com seu cachorro-guia, um lindo e taludo labrador, e pensei ainda mais egoísta e imaturamente que ela é que era feliz, porque não via, mas podia andar normalmente...
Tudo isso pra repetir a idéia chavão de que a gente não sente falta do negócio até que aquele negócio falte. Ou seja, eu nunca tinha atentado pra importância do dedão do pé, até me ver privado do bom funcionamento dele. Não sei o que aconteceu. Ele simplesmente acordou assim um dia.
O meu joelho também. Um dia ele acordou esquisito. Tentei ignorar por alguns meses, mas ele só piorou. Fui ao médico, fiz exame. O diagnótico: lesão de menisco. Mas que diabo é menisco? O médico pegou um esqueleto e mostrou: é esta cartilagem que fica entre os ossos do joelho. Mas o que é uma cartilagem?, perguntou minha filha em casa. É uma substância macia, tipo jujuba, expliquei.

Infográfico de um membro inferior: em vermelho, a jujuba que fica entre os ossos no joelho
Assim como no caso do dedão, não sei o que aconteceu com aquela jujuba. O médico perguntou: vc sofreu algum acidente, algum grande impacto? É estranho porque, no caso de pessoas JOVENS como você, é preciso haver um evento importante como causa, e você lembraria... Fiquei grato a ele por ter me considerado jovem, mas foi a única coisa boa da consulta. A primeira coisa ruim: nada de tênis. A segunda: fisioterapia. A terceira: fazer academia pra fortalecer a região. A quarta: se não melhorar, é preciso operar.
Mas onde foi parar aquele joelho que eu tinha até ontem? Eu estava com um amigo ortopedista e ele perguntou, qual a sua idade? 48, respondi. Ele: então tem que ver o seguinte, você tá no lucro, tudo que vem depois dos 40 é lucro. Não era bem o que eu precisava ouvir pra me animar. Ele: eu mesmo já operei os joelhos QUATRO VEZES, e continuam ruins. Peraí, você quer que eu me jogue no Canal do Mangue? Não tem saída? Ele refletiu um pouco: rezar.
Nesse meio-tempo, já recebi outros conselhos aparentemente mais úteis: fazer acupuntura, andar na areia, consultar outro médico, aplicar massa de gengibre, iniciar uma hemoterapia (retirar meu próprio sangue e injetar no joelho), praticar natação, esquecer o tênis, matar um bode na esquina. Vou tentar tudo isso, menos matar um bode, porque o bode é um dos bichos mais nobres da criação e eu amo os bodes e seus correlatos. Um dia, passando pelo Jardim do Méier, vi um cidadão vendendo um cabritinho por 50 paus. Quase comprei pra criar no meu apartamento, porque os bodes são animais tão inteligentes quanto os cachorros e excelente companhia. Eu costumava ir a um hotel-fazenda onde havia um belo bode à frente de um grupo de cabras e cabritos. Muitas vezes, em fins de tarde melancólicos, me sentei junto ao cercado deles e falei dos meus problemas ao chefe daquele clã de cheiro ativo. O bode velho me ouvia com grande atenção, compreensivo, me olhando de lado com suas pupilas retangulares, nunca me negando seus ouvidos, e tudo que pedia em troca era um pouco de cafuné na sua cabeça dura e um naco da minha jaqueta, que ele saboreava como um refinado gourmet. Mas eu me acovardei, achando que minha mulher poderia reclamar um pouco de ter um bode em casa, e não comprei o cabritinho do Jardim do Méier...
Depois desse circunlóquio digno de Tristram Shandy, volto à rotina dos exercícios, à espera do veredicto final, com a certeza de que, de qualquer maneira, eu tô no lucro.
Monday, November 16, 2009
Sunday, November 15, 2009
Minha alma canta: isso nunca vai dar certo...

É simples: ao norte, o complexo de favelas da Maré; a nordeste, o complexo de favelas de Penha/Olaria/Ramos/Inhaúma; a noroeste, o complexo de favelas de Beira-Mar; a centro-oeste, o complexo de favelas de Pinatubo (tem uma piscina no meio); a sudoeste, o complexo de favelas de Santa Cruz/Itaguaí; a sudeste, o complexo de favelas de Acari
Friday, November 13, 2009
Sie Verlassen den Amerikanischen Sektor

Estão comemorando a queda do muro de Berlim. Eu estive lá ainda na época do muro e era um negócio impressionante mesmo. Lembro que as áreas da cidade próximas ao muro eram desoladas, com terrenos vazios ou prédios depredados. Mais impressionantes ainda eram os artifícios que os infelizes do lado comunista usavam pra fugir pro lado bom. Tinha nego que viajava em fundo falso de porta-malas de Fusca. Tudo isso a gente podia ver num lugar lá que não lembro qual era, acho que um museu perto do Checkpoint Charlie.
Viajar por terra pra Berlim Ocidental dava um gostinho da ditadura socialista, porque a gente era obrigada a passar pela Alemanha Oriental pra chegar à cidade. Os guardas da fronteira comunista faziam cara de mau, olhavam nosso passaporte e nos encaravam com jeito nazistão. Brrr.
Chegar a Berlim era respirar ares de maior liberdade, não só porque a gente deixava a porcaria comunista pra trás, mas porque a cidade era mais bagunçada, diferente do padrão a que a gente estava acostumada na Alemanha. Morávamos em Munique, cidade belíssima, de gente ordeiríssima, gentilíssima e outros superlativos. Mas tinha aquelas coisas de alemão: se você chegasse um segundo depois que o ônibus deixasse o ponto, não adiantava fazer sinal, porque o motorista não dava aquela meia-trava pra você embarcar. Ele seguia em frente e você que esperasse outro ônibus. Uma vez, quando a gente morava numa área meio rural, testemunhei um fato que demonstrou esse tipo de comportamento elevado ao paroxismo. Havia um ponto de ônibus junto a uma cancela da linha férrea. O motorista saiu do ponto e teve que parar dois metros adiante, porque a cancela havia fechado pra passagem do trem. Chegou um infeliz atrasado e bateu na porta, pedindo pra embarcar. O motorista não se mexeu. O cidadão do lado de fora também não protestou. Foi pro ponto esperar outra condução -- que ali demorava a passar.
Não posso exagerar dizendo que estava integrado à sociedade alemã, porque isso está mais longe da verdade que chamar aquela ex-guerrilheira que morreu de defensora da democracia. Eu não estava integrado a nada, estava em subempregos, lavava pratos, fazia faxina. Mas me sentia muito bem. Gosto das coisas certinhas, de 2 + 2 ser 4. Odeio esse negócio de jeito de corpo, esperteza, performance, engenharia social etc. Mas apesar disso gostei muito da bagunça (pros padrões alemães a que eu estava acostumado, claro) de Berlim. Era uma cidade mais internacional, com muitos negões, muitos estrangeiros, uma população mais misturada. E, pra coroar, pegamos um ônibus e lá pelas tantas o motorista parou fora do ponto!
Pra chegar a Berlim, a gente recorreu a um negócio chamado Mitfahrzentrale, se não me falha a memória ortográfica. Era uma central de carona (Mitfahr), carona paga, mas ainda assim uma boa idéia.
Depois da unificação, ouvi dizer que a vida ficou mais difícil, ou menos fácil, na Alemanha -- por causa do imenso custo e demais choques de integrar ao país o pessoal que veio do outro lado, assunto já bastante conhecido -- e principalmente que Munique não é mais a mesma. Ouvi também queixas sobre os alemães de cá não aceitarem muito bem os de lá. Esse papo já rolava no tempo do muro. Eu conheci um alemão oriental que era um pé no saco. Ele havia fugido do paraíso comunista e trabalhava na mesma cozinha de hotel que eu, em Munique.
Na primeira vez em que nos encontramos, no plantão noturno, ele veio cheio de alegria me cumprimentar. Eu ainda não falava as dez palavras em alemão que aprendi mais tarde. Informei à criatura:
- Mim não falar alemão.
Ele murchou e o sorriso se apagou de forma abrupta no seu focinho desagradável.
- Ingrêis falar du? -- ele perguntou, depois de um tempo, num inglês ruim.
- É, nóis poder ingrêis conversar -- respondi, num inglês ainda pior.
Depois de alguma reflexão, ele se animou.
- Mim vir da Oriente Alemanha. Fugir inferno. Stalin, Lênin. Bandido tudo eles!
Ele me trazia os carrinhos com a louça e as panelas sujas. Eu, na pia, usava uma mangueira de jato poderoso pra tirar a craca de cada item, que depois era colocado na esteira da máquina de lavar.
- Ah, mim ser de Brazil. Fugir de cocô de país.
- Ah, Buenos Aires! Assistir TV um americano filme. Praia. Sol.
- Isso. Mas num ter dinheiro. Bandido ter, tiro nas fuça.
- Favela você morar?
- Morar. Favela de Buenos Aires.
- Carnaval, ah! Quero zambar na mulato!
- Escola de tango! Desfile Sapucaí, mim bater tamborim na Apoteose.
- Uh, muita bom, muita bom. Buenas gracias!
- Hasta la bista, cumpanhêro!
- hahaha.
- hahaha.
A noite tinha tudo para ser agradável, com a visão dos carrinhos de metal carregados de louça suja chegando a toda hora, o barulho da máquina de lavar e a mistura nojenta de cheiros no ar. Mas a besta lá começou a beber. A toda hora vinha com um carrinho de prato sujo e um copo de cerveja. Logo passou a aparecer com mais frequencia com um novo copo de cerveja do que com um novo carrinho. Aí começou a encher o saco. Ficou melancólico.
- Os alemauns num gostar nóis, pessoal do Oriente. Achão que num sumo gente...
Seus olhos se encheram de lágrimas.
- Ser solitário, não amigo...
Ele tinha parado de trabalhar pra ficar com as lamúrias. Passei a tirar a craca dos pratos e também a abastecer a esteira da máquina de lavar e a recolher os itens limpos, senão o troço não andaria.
- Não amigo, não família, não país, distante, noite negra...
O babaquara continuava fungando enquanto só eu trabalhava. A certa altura, deixei completamente de prestar atenção naquilo. Ele ainda seguiu choramingando por um tempo, até que explodiu:
- EU ESTAR FALANDO VOCÊ!!
Levei um susto, mas não tava a fim de retomar o suposto diálogo.
- Eu ter que trabalhar! Pratos lavar muitos! Máquina! Carrinho! Hora chega relógio e nada lavado!
- MAS EU SOFRER, FALAR AQUI, VOCÊ PRA MIM, OLHO! SER GENTE! NÃO SER COISA NADA! OLHAR EU!
- Não querer saber!
- OLHAR EU!
- DEIXAR EU NA PAZ!
O energúmeno avançou pra mim. Peguei uma concha das grandonas usadas na cozinha. Vou enfiar nos cornos dele. Mas não foi preciso. Ele se aproximou, ficou com a cara a uns dois centímetros de mim. Cruz, que bicho feio! O olho caído, o buço de freira portuguesa... Sou obrigado a olhar pra isso? Ele suava como cachoeira. Ficou vermelho, engasgou, parecia que ia explodir, como os caras do "Scanners", do Cronenberg. Aí murchou de novo e se afastou. Passou o resto da noite sem falar comigo, todo triste.
Tuesday, October 27, 2009
Cadê o Capeta que tava aqui?
Leio um crítico de cinema afirmando algo na linha de que um determinado diretor usa a história tal e tal pra na verdade expor as entranhas da sociedade americana, fazer uma crítica ácida etc. Ferrou! Então o cara não quis dizer o que ele mostrou no filme? Aquilo era um símbolo? Essa vai ser minha principal dificuldade pra tarefa que me impus a seguir, de fazer a crítica de um filme. Sou péssimo em símbolos, subentendidos, razões inconscientes...
Mas vou tentar abrir minha mente. Pra começar, eu invejo a Clara Lopez (link ao lado), não por causa do jeito dela de esmiuçar criticamente uma obra. Isso é coisa pra caramba, claro, mas eu não vou querer pendurar o chapéu onde não alcanço. Minhas ambições são chinfrins. Sinto inveja dela por ter ido ver um filme de terror ("Distrito 9") que eu queria ver. Mas, no tempo que eu tinha no domingo retrasado, só era possível ir a uma sessão, no Estação Botafogo, dum negócio chamado "Anticristo". Gostei de cara do nome. Adoro filmes com o Capeta. Isso mostra, é claro, que eu não sabia nada do filme. Mas li que o diretor era o Lars Von Trier. Me lembrei vagamente dele -- deve ter a ver com aquele negócio do Dogma, fiz uma vaga associação com a belezura da Nicole Kidman, fiquei animado e toquei pro Estação.
Minha filha quando foi comigo no Estação uma vez falou uma coisa certa: aquele lugar é deprimente. É verdade. Não digo a sala maior; aquela tudo bem. Mas as outras duas menores, como a 2, onde o filme estava passando, são bem lúgubres mesmo. A gente fica macambúzia e sorumbática na mesma hora. Acho que o carpete surrado e o forro das paredes velho devem contribuir pra isso, não sei. Mas talvez o pior sejam os frequentadores. O jeito deles deixa a gente deprimida na hora. Reparei bem dessa vez. Todo mundo parecia irremediavelmente triste e solitário enquanto esperava a abertura da sala. Encarei uma menina cor de vela e óculos fundo de garrafa. Ela desviou o olhar do meu pro chão. Vários ali na fila tinham cara de camundongo órfão. Me senti na mesma hora um derrotado pela vida.
A porta se abriu e, pra piorar, escolhi mal o assento. Era um lugar colado na parede, o que só aumentou a minha sensação de opressão. Na minha frente, a menina cor de vela se arriou na poltrona, com a cabeça entre as mãos. Passou um tempo e entrou um cara que acenou pra ela. Ela acenou de volta. Fiquei interessado, esperando os dois se sentarem juntos, já que o cinema estava vazio. Mas não foi o que aconteceu: eles trocaram umas poucas palavras desanimadas e logo ficaram calados, um tanto embaraçados. Aí cada um ficou no seu lugar, longe um do outro, com o olhar vazio perdido na tela apagada.
Um careca maluco ficava se sentando e levantando a toda hora. Saía da sala e entrava em seguida. Apagaram as luzes e ele veio pro meu lado, perguntar como é que se saía da sala. Indiquei pro anormal a porta por onde ele tinha acabado de entrar. O mentecapto foi até lá, deu umas três voltas na sala e se sentou. Algumas pessoas riram. Eu também achei que devia rir, mas não consegui. Em vez disso, tive uma reação estúpida que me envergonhou logo em seguida. Falei alto, irritado: "Só dá maluco nessa porcaria". O cara tristonho da minha frente que tinha saudado a garota cor de vela ficou com o pescoço tenso, girou uns cinco graus a cabeça na minha direção, mas não se virou pra me olhar. Deve ter ficado preocupado com a possibilidade de eu ser um demente agressivo.
Me ajeitei na poltrona, que não é do tipo bom pra dormir. Isso pode parecer um detalhe desprezível, mas não é de forma alguma, pelo menos na minha concepção do que seja um bom cinema, que inclui, entre outros atributos, a possibilidade de permitir ao espectador uns bons períodos de sono reparador. Estou sendo um tanto gongórico, mas olhaí, o filme começa. Enquanto ouvimos uma cantora lírica interpretando uma bela música, aparece um casal fazendo sexo em câmera lenta. Me animei um pouco. Aparece um close de um pênis adentrando uma vagina, sempre em câmera lenta. Me animei ainda mais. Adoro pornografia, me alfabetizei lendo Marquês de Sade. Lembrei logo do clássico do cinema pornô "Atrás da porta verde", com a deusa Marilyn Chambers, que eu guardo num relicário aqui em casa (o filme, claro,não a Marilyn). Uma das cenas é um balé de esperma em câmera lenta. Sou um entusiasta da arte. O casal faz sexo debaixo do chuveiro. Sempre em câmera lenta. Aparece uma máquina de lavar roupa girando (não a máquina, claro, mas a cuba que a gente vê pela escotilha). Isso já cortou um pouco o barato. Aí se alternam imagens de sexo, de um neném saindo do berço e do casal se esfalfando. E a cantora lírica continua a música. O que já me faz pensar, atrapalhando o clima: isso vai durar a música toda? Como num videoclipe? Parece que é isso mesmo. Dou umas piscadas, bato a cabeça. A máquina de lavar gira e a câmera mostra closes da cara da mulher. Mas ela tá com cara de sofrimento! Não parece que tá fazendo sexo, parece que tá tomando uma peridural. Que diabo, eu, só de conseguir uma ereção, já começo a gargalhar. Já estragou de novo o clima. O menino vai pra janela. Enquanto o casal faz aquele sexo sofrido, sempre em câmera lenta, o bebê cai de não sei qual andar, se estatela no chão, sendo seguido por seu ursinho de pelúcia. Chuif.

Um dos momentos mais aterrorizantes do filme
O que isso simboliza, meu Deus? Por que a câmera lenta? Por que a cantora lírica? Por que o diretor gasta intermináveis minutos naquilo? Por que a máquina de lavar? Por que o chuveiro? Por que a fotografia cinzenta (esqueci de citar esse detalhe)? É pra passar algum tipo de clima, de sentimento, alguma sensação estética específica? Ele devia ter informado pra gente ter a chance de sentir...
Essa introdução mostra o drama que levará o casal a se isolar numa cabana no meio do mato, onde o marido, um psicanalista, tentará curar a mulher da perda do filho. A mulher endoida e no começo ainda sossega levando umas pinadas do marido. Depois destrambelha totalmente e fica violenta.
Essa introdução marca também um período em que as brumas da mata onde o casal se refugia se confundem com as brumas que envolvem as memórias que tenho do filme dali em diante. Por causa da poltrona contra-indicada pros sonos dos justos, só consegui dormir a intervalos, que, no entanto, somados, podem ser considerados uma boa soneca pós-almoço. Lembro vagamente de algumas cenas: a mulher dando uma paulada no pênis ereto do marido, que desmaia mas mantém a ereção; a mulher masturbando o marido desmaiado até ele ter um orgasmo de puro sangue AINDA desmaiado; a mulher furando a perna do sujeito AINDA DESMAIADO com uma furadeira manual, enfiando o dedo no buraco sangrento pra ver se tava mesmo aberto e metendo nele uma haste de ferro, que sustenta uma roda de concreto, devidamente presa com uma espécie de porca, atarrachada com o uso de uma chave inglesa (atenção, isso é importante!); a mulher cortando com uma tesoura o próprio clitóris; uma raposa bonitinha falando...
De tudo que consegui ver, só me incomodei com a destreza com que a doida usa a chave inglesa e o fato dela até saber o nome daquela ferramenta. Sei lá, me pareceu meio irreal...


